Uma das Casas de Axé mais tradicionais do Rio faz a roda da economia criativa girar na Baixada e lança catálogo de moda nesta sexta

Ilê Omolu Oxum lança catálogo de moda nesta terça (07/05) reunindo o clássico das roupas ritualísticas e inspirações afro-brasileiras contemporâneas 
  

Foto/Alex Ferro

Por: Comunicando Já!

Entre tecidos, fazendas, máquinas e agulhas, o Ilê Omolu Oxum – um dos terreiros de Candomblé mais tradicionais do Rio de Janeiro – vem encontrando novas soluções para seguir fazendo a roda da economia criativa girar em meio à pandemia de Covid-19. O Ateliê Obinrin Odara, que também é oficialmente Ponto de Cultura, seguindo as determinações das autoridades sanitárias, lança de forma virtual no próximo dia 7 de maio, um catálogo digital com a coleção que leva o nome ‘Moda de Terreiro’. O projeto é capitaneado por Mãe Nilce de Iansã, Iyá Egbé (responsável pelas ações comunitárias do terreiro), que na ocasião fala sobre a importância das tradições na confecção das indumentárias ritualísticas e os desafios das atividades relacionadas à moda nesse momento de isolamento social. O evento é remoto e estará no ar na página do Facebook do Ilê a partir das 18 horas.

 
Desde a sua criação, em 2013, o Ateliê tem se consolidado como importante instrumento de inclusão, qualificação profissional, preservação da cultura popular, além do foco para geração de renda das mulheres do terreiro e da comunidade do seu entorno. Localizado em São João de Meriti – na Baixada Fluminense – no Rio de Janeiro, o Obinrin Odara segue atento às tendências e busca ampliar as criações para além do estilo tradicional e religioso, desenvolvendo também a linha de peças contemporâneas com influência afro-brasileira e de olho nas demandas do mercado. 
 
”Com o lançamento do catálogo Moda de Terreiro queremos dar continuidade ao trabalho que existe desde 2013 e foi duramente atingido pela pandemia. No Ilê Omolu Oxum nós aprendemos, desde a iniciação, sobre a importância da relação entre o Candomblé, memória e estas indumentárias. Seguimos o exemplo da nossa Iyalorixá, Mãe Meninazinha de Oxum, que aprendeu com sua mãe de santo e avó materna, Iyá Davina de Omolu. Até hoje preservamos a máquina de costura de Iyá Davina no Museu Memorial dedicado à ela”,conta Mãe Nilce. Ela também relembra que muitas mulheres aprenderam a costurar naquela máquina, inclusive sua mãe biológica, Mãe Dininha de Oxóssi. ”O nosso saber é ancestral, daí a importância desse legado ser repassado para os mais jovens, garantindo a continuidade das nossas tradições”, conclui a Yalorixá. 
 
Nilce Naira Nascimento é a coordenadora de projetos do Ilê Omolu Oxum, responsável pelas atividades de qualificação profissional, geração de renda, inserção no mercado de trabalho, combate à violência doméstica, machismo, homofobia e intolerância religiosa. Sua atuação direta em palestras, conferências, fóruns e comissões tem sido reconhecida nacionalmente com premiações, moções e outras homenagens. É coordenadora do RENAFRO (Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde), além de autora de publicações sobre a cultura afro-brasileira. Yá Nilce de Iansã desempenha papel fundamental na preservação da memória material e imaterial dos povos de terreiro. 


Manter viva a cultura tradicional das indumentárias de terreiro, qualificar e inserir essas mulheres no mercado da moda possibilitando que elas sustentem suas famílias de maneira mais digna e vislumbrem uma carreira, são os principais objetivos da iniciativa. Estes pilares destacam pontos importantes não só para entender os problemas e encontrar soluções relacionadas às questões específicas dessas mulheres (dificuldade de inserção no mercado de trabalho, maternidade, saúde e eventualmente violência doméstica), mas também para enxergar o que elas estão fazendo e como estão se organizando para enfrentar esses desafios e apoiar umas às outras. 

Dados da indústria

A indústria da moda reúne um número significativamente expressivo de mulheres e, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), 75% dos 1,5 milhões de postos de trabalho ocupados na indústria têxtil brasileira são delas. A Firjan destaca o conceito de Cadeia da Moda, que se caracteriza por possuir uma relevante parcela de profissionais que não fornecem seu trabalho através de um contrato formal com carteira de trabalho assinada. Diversas atividades desta Cadeia compram a produção – e não o trabalho – de profissionais autônomos ou por conta-própria. Com dados coletados no último Censo estima-se que a parcela destes profissionais nas etapas industriais da Cadeia da Moda no estado do Rio de Janeiro seja de 46,8%. A parcela é ainda maior entre costureiras, bordadeiras e afins (68,3% por conta própria). Os municípios da Baixada Fluminense concentram mais de 25 mil empregados formais na Cadeia do estado (13,5% do total dos empregados da Cadeia de Moda de todo o Rio de Janeiro) e respondem relativamente por 9,5% de todo mercado de trabalho da Baixada. A região se destaca pelo peso do Mercado de Moda, uma vez que quase 85% dos estabelecimentos e mais de 75% dos vínculos empregatícios em sua cadeia de moda são referentes a atividades de comércio. Em São João de Meriti, onde se localiza o Ateliê, 26,7% dos estabelecimentos e quase 30% dos vínculos empregatícios formais representam os índices do município da cadeia de moda na região.  


Para o coordenador geral de comunicação do projeto, Marco Antonio Teobaldo, é mais do que necessário apoiar o desenvolvimento e as habilidades das pessoas que integram as comunidades de terreiro e daquelas que vivem em seus arredores. ”Nós associamos as atividades desenvolvidas ao fortalecimento das Comunidades Tradicionais de Terreiros e cultura afro-brasileira, somadas à promoção dos Direitos Humanos, fatores importantes para que os terreiros sejam reconhecidos como espaços de acolhimento,
produção de conhecimento e inclusão social. Dada a importância desta atividade criamos um projeto gráfico a partir do ensaio assinado pelo fotógrafo Alex Ferro com modelos e outras profissionais do próprio terreiro, conferindo um estilo original para a produção”, destaca o também curador do Museu Memorial Yá Davina. 

O catálogo digital Moda de Terreiro ficará disponível no site do Ilê Omolu Oxum (www.ileomolueoxum.org), logo após o seu lançamento. Por conta da pandemia, as atividades presenciais no Ateliê estão suspensas, mas é importante lembrar que a marca segue recebendo encomendas pelas redes sociais e Whatsapp. 

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