Território Baixada homenageia cultura ancestral em sua terceira edição

Fotos/ Mazé Mixo e Ana Valéria Gonçalves 

Por: Comunicando Já!

Publicado em: 13/07/2021

 

Dando início à sua terceira edição, oTerritório Baixada realiza seus ciclos de encontros entre artistas, coletivos, pesquisadores e produtores em torno de debates, oficinas e performances que revelam os processos culturais e criativos da Baixada Fluminense de 22 a 24 de julho. O evento, adaptado para o formato virtual respeitando as restrições sanitárias por conta da pandemia do Covid-19, é transmitido gratuitamente pelo canal do projeto no YouTube. Para acompanhar os painéis de debate, as intervenções artísticas e os mini docs basta acessar o canal e não é preciso fazer nenhum tipo de cadastro para assistir. Já as oficinas, que serão ministradas ao vivo pela plataforma zoom, terão inscrições prévias com vagas limitadas e começam nesta quarta-feira (14/07).

 

Nas duas edições anteriores, em 2014 e 2015, os diálogos tinham como objetivo trazer à tona a reflexão, a gestão e a produção entre pesquisadores, agentes e artistas experientes com realizações de relevância para o território. Na versão de 2021 os três dias de programação são voltados para os saberes e as culturas tradicionais da região a partir do tema ”Eu reinvento outros mundos”. Lideranças espirituais, pesquisadores, artistas populares, entre outros nomes representativos dos povos de matrizes africanas, ameríndias e indígenas que ajudaram a escrever a história social da Baixada e que, ainda nos dias de hoje, perpetuam um legado de enorme riqueza para nossa memória e identidade contam parte dessa trajetória.

Para a idealizadora do encontro, a produtora e jornalista Dani Francisco, é importante homenagear os mistérios dos terreiros, dos quintais, das esquinas e das instituições de defesa dos direitos desses povos diante de trajetórias singulares que dão voz a uma parte da imensa riqueza desse legado-sagrado.”Nesse chão Baixada Fluminense deitaram-se as mais resistentes raízes de um Brasil profundo e genuinamente indígena, negro e africano. Em um momento de tantas violações, de tanto torpor e rasuras, a curadoria sensível e cuidadosa de Marize Pará Reté, Luciane Barbosa e Marcos Serra nos presenteia com uma programação muito viva, bem trançada, com beleza, com sede de justiça, com fome de regeneração, nos trazendo de volta à nossa casa-alma, à nossa casa-mundo, à nossa casa-sabedoria” – enfatiza a responsável pela produtora que realiza o evento, a Terreiro de Ideias.

O trio de homenageados especiais enriquece ainda mais o encontro ao contar um pouco de sua trajetória durante a exibição dos três mini docs que dão conta, cada um, de passagens importantes dessas três figuras extremamente representativas para a ancestralidade baixadense. Mam’eto Mabeji, a baiana também conhecida como ”a flor do candomblé” e atendendo pelo nome na certidão de nascimento de Floripes Correia da Silva Gomes, é a dirigente responsável no comando do Terreiro Bate Folha do Rio de Janeiro; Ogan Bangbala, ogan vivo mais antigo do Brasil e esbanjando saúde com seus 102 anos, baiano de Salvador  que também adotou a Baixada Fluminense para viver há mais de 70 anos; e Yá Doya, educadora, cozinheira ancestral, filha biológica de Mãe Beata de Yemanjá e uma das herdeiras de seu legado no Ilê Axé Omiojuarô. A tríade ‘Memórias de Griot’ traz, a cada curta, histórias, ensinamentos, inspirações e saberes que dão o tom da diversidade ancestral que permeia a região. 

Entre os debatedores estão: a mestranda em psicologia pela UFRJ Mam’etu Itamara; o mestre em História Comparada pela UFRJ e secretário executivo do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas, Ele Semog; a conselheira municipal de Cultura de Duque de Caxias e artesã, Ana Kariri; o mestre em educação pela UERJ e Babálorixá do Ilê Axé Omiojuarô Adailton Moreira d’Ogun; além do Presidente do Conselho Estadual de Direitos Indígenas e fundador da Associação Indígena Aldeia Maracanã – AIAM | RJ, Cacique Carlos Tukano. As performances da arte-educadora Jéssica Castro, com sua vivência do jongo e outras africanidades, e do ator e cozinheiro da floresta macapaense, Ton Rodrigues, são outros pontos altos do evento. As oficinas, queridinhas do público, serão transmitidas em tempo real pela plataforma zoom ao longo dos três dias e cada uma abrirá apenas 15 vagas. Pacari Pataxó, Mestre Paulão Kikongo e Akazuy Tabajara levam, respectivamente, uma pequena mostra sobre os significados dos saberes da floresta; o jogo e a ginga da capoeira e a cura através das folhas. 

Os painéis de debate, as oficinas, as palestras e as intervenções artísticas trazem um pouco mais para perto o universo tão característico de cada um desses ‘povos-pilares’ que, apesar de invisibilizados, seguem construindo suas memórias nesse espaço. ”O ‘Território Baixada’ se torna fundamental para produzir a visibilidade indígena que o processo de colonização tentou esconder: que a Baixada é terra indígena!  Minha participação como curadora, em plena pandemia, me fez perceber que somos resistência e sobreviventes” – atenta a Presidente da Associação Indígena Aldeia Maracanã e Conselheira do Conselho Estadual dos Direitos Indígenas do Rio de Janeiro, Marize Para Reté. 


A iniciativa parte da necessidade de conectar e celebrar agentes desse verdadeiro mapa afetivo que pensam e refletem esses processos de criação, além de solidificar os trânsitos e as trocas entre os diferentes territórios, linguagens e agentes dentro da mesma região. A Mestre em Patrimônio, Cultura e Sociedade pelo PPGPACS – IM/ UFRRJ, Luciane Barbosa, considera que o encontro é uma espécie de resistência sagrada e uma celebração às memórias vivas. “Pensar o Território Baixada é pensar nosso espaço de representatividade. Quais são as memórias que queremos lembrar? Quais são as histórias que queremos contar? O que faz a gente ser forte?”,aponta a secretária executiva do Comitê Científico Nacional do Patrimônio Cultural Imaterial do Icomos-Brasil.

O doutor em educação pela UERJ e professor de artes cênicas, Marcos Serra, acredita que o encontro é uma bela ”trincheira”,cujas armas são os afetos, os fazeres, os saberes e a força da cultura. ”Eu me reinvento no candomblé, no teatro, e mais ainda durante um encontro de tantas pessoas queridas e guerreiras da Baixada. É um ‘juntamento’ fantástico uma grande honra dividir a curadoria com mulheres que admiro tanto” – conclui o, também, pesquisador do Núcleo de Estudos das Performances Afro-Ameríndias (NEPAA).  

Inscrições para as oficinas disponíveis no site www.territoriobaixada.com.br a partir de 14|07.

O Governo Federal, Governo do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, através da Lei Aldir Blanc viabilizaram o Território Baixada, através do edital público Retomada Cultural. 

** Fotos ** –> Mazé Mixo e Ana Valéria Gonçalves 

https://drive.google.com/drive/folders/187PqcvX713bQgYE6thkNEYS7LHzdbVi-?usp=sharing

** Canal do YouTube_vídeos **

https://www.youtube.com/channel/UCg20fDNZMTJBK1PE4EptC_w/videos

* Território Baixada nas redeshttps://linktr.ee/territoriobaixada

Programação

 

Dia 22|7 – Quinta-feira

 

Espaço Rezo | 10h às 12h

Arte como ética e significado: os saberes da floresta para a reinvenção dos mundos 

 

Com Pacari Pataxó

Oficina transmitida em tempo real

Via plataforma Zoom



Painel de Debate | 16h

 

Tema Eu reinvento outros mundos

 

Mediadora Marize Para Reté

 

Debatedores Babalorixá Adailton Moreira d’Ogun | Mam’etu Itamara | Cacique Carlos Tukano 

 

 

Performance | 18h 

 

Barreira do Mar – de Ton Rodrigues

 

MiniDoc | Memórias de Griot com Mam’etu Mabeji | 19h30

A Flor do Candomblé, como é conhecida Mam’etu Mabeji, nasceu em 1936 em Salvador, Bahia. Veio para o Rio de Janeiro com 10 anos e aos 11, foi iniciada para o Inkise Nsumbu por Sr João Lessengue, seu tio. Em 2021, Mam’etu Mabeji completa 74 anos de ofício devocional. 

Ela nos presenteia com suas cantigas, histórias e ensinamentos sobre o Candomblé Congo-Angola, os Nkisi (leia-se Inquice) e o terreiro como lugar de educação, sagrada, de doçura e, sobretudo, respeito pela vida.  

 

Dia 23|7 – Sexta-feira 

Espaço Rezo | 14h às 16h 

Garrafadas, xaropes, raízes e folhas: a cura está dada

Com Akazuy Tabajara

Oficina transmitida em tempo real 

Via plataforma Zoom

 

Painel de Debate | 17h 

Tema Mulher e tradição, ontem e hoje: a presença feminina e ancestral no território

Mediadora Luciane Barbosa

Debatedoras Ìyá Marli Ògún Méjìre Azevedo | Guaraciara Peixoto Dias | Silene Ribeiro 

MiniDoc | Memórias de Griot com Yá Doya Moreira | 19h30

Doya Moreira é Yá Kékeré (pronuncia-se kekerê) da Comunidade de Terreiro Ilê Omiojuarô. Filha biológica de Mãe Beata de Yemanjá, Doya é artesã, educadora social e cozinheira. Participou, como formadora de Educadores, do projeto A Cor da Cultura, do Canal Futura e do programa “Um pé de quê?”, de Regina Casé, pelo mesmo canal, apresentando a culinária afro-brasileira dos terreiros de Candomblé. 

Aqui ela compartilha suas inspirações a partir da filosofia candomblecista, do legado de amor e fé deixado por Mãe Beata e daquela que é sua maior paixão: a arte de cozinhar. Da cozinha encantada do Ilê Omiojuarô, ela preparou um maravilhoso Xinxin de Galinha com Omolocum e Amalá, nos ensinando sobre a sacralidade dos alimentos, sobre as diversas comidas ofertadas aos Orixás e como, a cozinha brasileira pode ser um grito de resistência contra o racismo religioso.  

 

Dia 24|7 – Sábado

Espaço Gira | 14h às 16h

No jogo, na ginga, na roda de Capoeira: oralidade, musicalidade e corporeidade como filosofias civilizatórias

 

Com Mestre Paulão Kikongo

Oficina transmitida em tempo real

Via plataforma Zoom

  

Painel de Debate | 17h 

Tema Epistemologias encantadas: arte e educação antirracistas como travessias para um novo mundo  

Mediador Marcos Serra

Debatedores Ana Kariri | Obalera | Ele Semog 

Performance | 19h30

Aonde o Jongo me Levar: dos palcos, ruas e favelas ao chão batido das canas e cafezais, de Jessica Castro

 

MiniDoc | Memórias de Griot com Ogan Bangbala | 20h30

Nascido em Salvador, Bahia, no ano de 1919, Luiz Ângelo da Silva, o Ogan Bangbala, é reverenciado como a história viva do Candomblé por ser o Ogan mais antigo do Brasil. É também artesão e confecciona diversos instrumentos musicais percussivos.

Já recebeu inúmeras homenagens por isso está em livros, reportagens, CDs, filmes, além de ter recebido, em 2014, do Ministério da Cultura, o título de Comendador, a Ordem do Mérito Cultural, honraria dedicada a personagens que se destacam em suas áreas de atuação.

Morador de Belford Roxo, nos narra parte do seu fantástico repertório de cânticos ancestrais, saberes, além da partilha de momentos emocionantes vivenciados ao lado de lideranças ilustres, de diversas tradições candomblecistas do país. 

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